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Escócia

Na Escócia, professores fazem curso interativo e têm apoio de tutores para levar empreendedorismo social para escolas

Resumo

  • Social Enterprise Academy organiza cursos com grupos pequenos e focados na interação entre os participantes

  • Metodologia valoriza habilidades e experiências dos educadores, mas provoca transformação em suas percepções sobre si e o mundo

  • Depois da formação, tutores dão apoio contínuo para professores trabalharem projetos de empreendedorismo social nas escolas

Uma das ações do programa do governo escocês para desenvolver o empreendedorismo social no país é a formação de professores e o suporte contínuo ao trabalho deles para levar o tema para as escolas. Implementado pela organização de interesse comunitário Social Enterprise Academy, o processo inclui cursos para pequenos grupos de educadores liderados por tutores, que posteriormente acompanham o desenvolvimento de projetos nas escolas. 

“Nas formações, ajudamos os professores a entenderem o que é o empreendedorismo social, dando exemplos da vida real dos tutores, que costumam ter experiência na área. Encorajamos que conversem uns com os outros e falem sobre o dia a dia da escola, usando as próprias experiências e habilidades para entenderem como o empreendedorismo social pode funcionar no contexto deles”, explica James Johnstone, coordenador educacional da Social Enterprise Academy. Essa dinâmica acontece na primeira sessão, focada na interação entre os participantes.

Social Enterprise Academy promove cursos com grupos pequenos de educadores

A metodologia do curso se inspira em pensadores como o brasileiro Paulo Freire – com sua pedagogia da autonomia -, Donald Schön – filósofo americano, referência na proposta de formação de professores para uma educação reflexiva, voltada para a resolução de problemas – e o “Antigonish Movement” – surgido no Canadá, no início do século 20, que uniu educação de adultos e cooperação para promover mudanças sociais e econômicas.

As ideias dos pensadores e do movimento ajudaram a academia a criar uma formação que se baseia no fato de que todos os participantes têm a própria experiência e especialidade, segundo James. “Independe do trabalho que possa ser feito, acreditamos que empreendedores sociais podem ser encontrados em absolutamente qualquer lugar, qualquer grupo e qualquer sala de aula na Escócia. Procuramos dar às pessoas a oportunidade de mostrar as habilidades que elas têm”, diz.

Mas o objetivo é também provocar uma transformação profunda em seus pensamentos, sentimentos e ações. “É uma mudança de percepção e consciência, que altera nossa forma de estar no mundo. A aprendizagem transformacional, portanto, afeta nossa compreensão de nós mesmos, nossos relacionamentos com outras pessoas e o mundo em geral, as prioridades que temos e nosso senso de propósito e direção”, explica publicação sobre a metodologia de aprendizagem da academia.

Para proporcionar essa experiência transformadora, a abordagem se baseia em quatro princípios: espaço, segurança, suporte, pontos fortes.  “A concepção de espaço, onde a reflexão é possível e as ideias podem ser materializadas em ações, é encapsulada no ciclo de aprendizagem de adultos para levar os participantes a percorrer uma jornada que os envolve em diferentes níveis para incorporar novos conceitos e comportamentos, detalha a metodologia. O ciclo de aprendizagem desenvolvido pelo teórico educacional americano David Kolb inclui: experiência, reflexão, compreensão e ação.

Após o encontro inicial com os educadores, há uma reunião de acompanhamento sobre os planos que eles constroem para suas escolas. O próximo passo é um workshop de uma hora e meia de um tutor com os estudantes. “Normalmente, seria uma visita para planejar o empreendimento social a ser desenvolvido e, em seguida, acontece uma segunda visita de avaliação, para ver como tudo está andando. O coordenador educacional oferece apoio contínuo ao professor. Se uma escola precisar de mais uma visita para ajudar com a ideia, nós fornecemos”, diz James.

Para avaliar a formação e os projetos é usada uma metodologia inspirada na Teoria da Mudança, que define e representa visualmente os objetivos de longo prazo de uma organização e o processo pelo qual eles serão alcançados, demonstrando as ligações lógicas e cronológicas entre entradas (matéria-prima ou recursos, por exemplo), saídas (produtos ou serviços), resultados e impactos. É sustentada pelo Modelo de Kirkpatrick, para avaliação de treinamentos, que demonstra os diferentes níveis de impactos a serem acompanhados após a participação em um programa, como reação, aprendizagem, comportamento, resultados e impactos na comunidade.

Há ainda uma versão online da formação. “Tentamos manter o conteúdo muito semelhante, mas existem limitações quando você está conectado virtualmente. Procuramos manter o trabalho interativo, em movimento e divertido, por isso tem sido um desafio interessante tentar e pensar sobre como fazer o curso online. Colocamos bastante ênfase na criação de um espaço seguro na sala, o que é muito mais fácil de fazer presencialmente.”

Empreendedorismo social em cinco mil escolas

Iniciado em 2007, o programa do governo escocês para a educação faz parte de um projeto para o desenvolvimento do setor de empreendedorismo social no país. O objetivo é implantar o tema no currículo de todas as suas mais de cinco mil escolas até 2028. Cerca de mil escolas já tinham sido alcançadas até 2019.

“Acreditamos que, ao ajudar crianças e jovens a compreender, e vivenciar, as empresas sociais como negócios criativos e impactantes, eles irão buscar uma mudança positiva, que contribua para a melhoria da sociedade. Isso, por sua vez, alimentará o crescimento do movimento de empresas sociais. Nossa ambição, portanto, é garantir a aprendizagem baseada em valores do empreendedorismo social em todas as escolas, para iniciar essa mudança”, afirma o plano estratégico governamental para o desenvolvimento do setor entre 2017 e 2020. O programa inclui uma premiação anual para os melhores projetos. Neste ano, 55 escolas receberam o prêmio.

As ações na área de educação incluem: proporcionar aprendizagem nas escolas; oferecer formação para professores, profissionais da educação e faculdades; aproveitar o potencial da educação informal, trabalhando com jovens, famílias e adultos; estimular contratações de trabalho e de estágio na área; desenvolver o empreendedorismo social em universidades, incluindo a incubação de empresas; estabelecer um fórum acadêmico sobre o tema, com bolsas para pesquisas de pós-graduação; e garantir o reconhecimento profissional dos educadores envolvidos, incluindo prêmios e qualificações. 

“Temos suporte para desenvolver e dar formação e para enviar nossos tutores às escolas, ajudando os professores e fazendo workshops com os estudantes. A parte principal é descobrir do que eles gostam e o que querem mudar. Assim, ajudamos a desenvolver o empreendedorismo social e a fazer algo em relação a uma causa social ou à questão que pretendem resolver”, diz James. 

Projetos com idosos e crianças

O coordenador educacional da Social Enterprise Academy conta que os cerca de 2.700 educadores que já participaram da formação tinham uma mentalidade bastante positiva e se mostraram abertos à experiência. Um dos exemplos citados por ele para exemplificar o sucesso do projeto é o que aconteceu na St Joseph’s Primary School, em Glasgow. 

Depois de participar do curso da academia, a professora Pauline McKibbin compartilhou o aprendizado com os colegas e trabalhou o empreendedorismo social com dois grupos de alunos em 2017.

 Um deles desenvolveu um projeto para ajudar a diminuir a solidão dos idosos. As crianças venderam CDs da festa de final de ano e calendários para arrecadar dinheiro. Usaram o lucro para organizar visitas a um centro de cuidados diários de idosos, onde realizaram com eles atividades como tricô, costura e jogos tradicionais.

 O outro grupo trabalhou com questões de saúde mental e bem-estar das crianças. “Criaram ‘pedras e monstros de preocupação’ e fantoches de meia, itens que podem usar para ajudá-los a se acalmar e compartilhar suas preocupações. Eles venderam seus trabalhos no Fórum Mundial de Empreendedorismo Social em Edimburgo e usaram os lucros para desenvolver brinquedos de estratégia e quadros inspiradores para cada classe da escola”, conta a professora.

 Depois disso, animados com as experiências que tiveram com os idosos, os grupos organizaram um evento que celebrou a diversidade cultural e a vida em Glasgow, com trabalhos e pratos típicos feitos pelas crianças.

Os projetos fizeram tanto sucesso que o trabalho se espalhou por toda a escola, com empresas sociais para cada estágio, com crianças entre 4 e 11 anos. Há projetos envolvendo falta de moradia, saúde mental e bem-estar, diversidade cultural, moda popular, jovens refugiados, empoderamento de pessoas jovens e formas de lidar com a solidão por meio da aprendizagem entre gerações.

 Para desenvolver ainda mais o conhecimento e a compreensão das crianças sobre o empreendedorismo social, a escola continuará a dedicar um bloco de aprendizagem a cada ano ao tema. “Assim, cada criança, ao longo de seus sete anos na escola, terá experimentado uma ampla gama de iniciativas empreendedoras, explorado questões sociais em nível local, municipal, nacional e global e terá se envolvido na criação e gestão de uma pequena empresa”, afirma Pauline.

 Com o apoio da professora, neste ano os educadores irão planejar e entregar projetos de empreendedorismo social alinhados com o plano escolar e ligados aos currículos. “Nossos projetos têm sido o principal fator em nossos resultados de aprendizagem para a sustentabilidade.”

 Desde o início do trabalho, a escola passou a receber visitas e os alunos começaram se encontrar com representantes locais, segundo a professora. “Nesses encontros, as crianças se mostraram confiantes e bem informadas, pois tinham uma vasta experiência para discutir e compartilhar”. Ela também conta que os professores se engajaram rapidamente e gostaram de trocar experiências. “Escolhemos uma hora do dia que fosse menos perturbadora para ensinar e aprender a trabalhar com pequenos grupos, então os professores não precisavam se preocupar com o tempo.”

 Pauline planeja os programas de trabalho em conjunto com os outros professores e alunos. Faz ainda reuniões com os colegas após as aulas para garantir que eles tenham uma compreensão clara dos princípios do empreendedorismo social. “Conversas regulares e informais acontecem para garantir que eles tenham tudo que precisam para entregar com sucesso seus programas de trabalho.” A escola usa ainda recursos online, parte importante da aprendizagem durante a quarentena.

 Os professores são convidados a refletir sobre os programas, segundo Pauline. “O programa é considerado um documento de trabalho e os professores são encorajados a fazer alterações à medida que avançam. Estas mudanças nos permitem melhorar o programa oferecido e aprimorar a experiência das crianças. Os estudantes são incentivados a compartilhar suas experiências em todo o bloco de ensino e fazem atualizações regulares sobre seu aprendizado em assembleias semanais.”

 James visita a escola regularmente para dar suporte e compartilhar novas iniciativas. “Eles vêem o empreendedorismo social como algo que pode realmente engajar todos os alunos na escola e fazer com que entendam a diferença que podem fazer. Cada classe faz algo diferente, impactante e especial. São incrivelmente autoconfiantes, apaixonados e engajados”, afirma o coordenador educacional.

Expediente

  • Coordenação do projeto
  • Ana Paula Bessa (British Council), Carla Uller (Oi Futuro), Fabio Meirelles (Oi Futuro), Fernanda Sarmento (Oi Futuro), Flávia Vianna (Oi Futuro), Isabela Milanezzi (British Council), Luis Felipe Serrao (British Council), Marina Lopes (Porvir), Regiany Silva (Porvir), Tatiana Klix (Porvir).
  • Produção executiva
  • Regiany Silva
  • Edição
  • Tatiana Klix
  • Textos
  • Marina Lopes, com apoio de Fernanda Nogueira (casos IFPR Jacarezinho e Social Enterprise Academy) e Luciana Alvarez (Escola Jardim Buscardi)
  • Vídeos
  • Marina Lopes e Vinicius de Oliveira (roteiro e entrevistas); Rastro (captação, edição e finalização)
  • Podcasts
  • Marina Lopes (roteiro), Rodrigo Paciência (edição), Tatiana Klix (apresentação)
  • Design e Desenvolvimento
  • Sintropika
  • Consultoria para infográfico sobre ensino médio
  • Anna Penido
  • O conteúdo foi produzido a partir da contribuição de representantes dos campos educação e empreendedorismo social, que se reuniram no encontro Empreendedorismo Social na Educação: Como Aproximar os Dois Universos, em 13/02/2020:
  • Adriana Barbosa (Feira Preta), Alan Nascimento (Oi Futuro), Alison Fagner de Souza e Silva (Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco), Anna Penido (Instituto Inspirare), Bárbara Gazal (Oi Futuro), Bárbara Soares (Nave Rio), Bernardo Mendonça dos Santos (egresso Nave-Rio), Carla Teixeira Panisset (Sebrae), Carlos Humberto da Silva Filho (Diáspora Black), Carol Marceli (egresso Nave-Rio), Cristina Becker (British Council), Daielly Melina Nassif Mantovani Ribeiro (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade - FEA/USP), Erick Simões de Matos (Nave Recife), Fabiano Farias de Souza (Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro), Fábio Deboni da Silva (Instituto Sabin), Fabio Miller (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável - CIEDS),
  • Gelson Henrique (CI-JOGA), Gustavo de Lima Cezário (Sebrae), Helena Singer (Ashoka), Iasmim Alves (Mais Torcedoras), João Souza (FA.VELA), Júlia Pinheiro Andrade (Ativa Educação), Juliana Guimarães (British Council), Karina Trotta (Oi Futuro), Katia Smole (Instituto Reúna), Lindsey Hall (RIO), Maíra Pimentel (Tamboro), Marina Lopes (Porvir), Raimundo das Graças Lima Xavier (Projeto Social Ação Parceiros e Espaço de Aprendizagem Criativa Comunitário), Rafael Parente (ex-secretário de educação do Distrito Federal), Raquel Souza (Instituto Unibanco), Rita Afonso (UFRJ), Roan Saraiva (Oi Futuro), Robson Melo (Estante Mágica), Silvana Bahia (Olabi), Ruth Espinola (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ), Vinícius de Oliveira (Porvir).
  • *Instituições que estão associadas aos nomes são as que eles e elas representavam na data do evento.