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Montes Claros (MG)

Educação empreendedora desperta sonhos e mobiliza comunidade escolar em Montes Claros (MG)

Resumo

  • Professora partiu de interesse e necessidades dos estudantes para criar projeto de educação empreendedora em 2016

  • Após experiência bem sucedida com 150 alunos no primeiro ano, educadora decidiu ampliar projeto e conseguiu mobilizar gestão, professores, familiares e parceiros da escola

  • Experiência estimulou criação de outros projetos na escola, melhorias no uso do espaço e expansão dos projetos de vida dos estudantes

O projeto “Educação Empreendedora: Sonhos e Práticas”, da escola estadual Américo Martins, em Montes Claros (MG), começou em 2016. Criado inicialmente pela professora de língua portuguesa Sande Polyana Silva Almeida, cresceu nos anos seguintes e mobilizou estudantes, familiares, professores, profissionais da gestão da escola e da secretaria, além de outros parceiros.

Preocupada com a desmotivação de seus alunos, Sande pensou em estratégias para levar o empreendedorismo, área em que já havia trabalhado, para dentro da sala de aula. Fez um diagnóstico com os cerca de 150 alunos das turmas de 9o ano do ensino fundamental e das séries de ensino médio em que atuava, para entender os desejos e o projeto de vida dos estudantes.

“A maioria respondia que não tinha muitos sonhos, mas o maior era ajudar a família. Vi que cabia a educação empreendedora. Eles não viam saída na escola. Queriam resolver um problema urgente. Decidi trabalhar o empreendedorismo, mostrando que poderiam estudar e contribuir em casa também”, diz Sande.

Durante o ano letivo, a professora desenvolveu as habilidades empreendedoras dos estudantes durante suas aulas. Os jovens criaram empresas de reciclagem de diferentes tipos de materiais. No final do ano, organizaram uma feira piloto com o tema da sustentabilidade, para apresentarem e venderem seus produtos.

No ano seguinte, Sande decidiu desenvolver o trabalho com todas as turmas desde o 6o ano até o final do ensino médio. “Escrevi o projeto e apresentei à escola. A direção se entusiasmou, mas se viu presa pelo calendário. Marquei uma reunião com a superintendência. Fui com a vice-diretora e expliquei a ideia. Aceitaram na hora. Não conheciam nada sobre educação empreendedora, mas acharam interessante porque ia fazer com que os alunos tivessem um objetivo.”

A professora conseguiu ainda uma capacitação para outros educadores e profissionais da escola interessados em participar. “Fui conquistando os colegas aos poucos. Fiz dinâmicas, trouxe o Sebrae-MG para falar sobre o tema. Chamei uma professora de outra escola, com alguns resultados, para se apresentar aos alunos e professores. Foi um trabalho de formiguinha. Conforme o projeto foi andando, foram se engajando.”

A mobilização dos alunos foi mais fácil, segundo Sande. Eles ficaram animados ao perceber que o projeto envolvia novas possibilidades de estudos e trabalho dentro da escola, que eram diferentes das que estavam acostumados, e em espaços fora da sala de aula, como a quadra, o pátio e a biblioteca.

“Quando perceberam que poderiam trabalhar com habilidades que já tinham, diferentes do conhecimento em química e matemática, em que eles têm dificuldades, quiseram participar. Durante o processo, foram modificando a forma de enxergar a escola. O projeto sensibilizou os alunos de uma forma muito positiva”, afirma Sande.

As atividades foram desenvolvidas de acordo com os conteúdos programáticos previstos no calendário. Em sua aula, por exemplo, a professora trabalhava a norma culta ao mesmo tempo que desenvolvia atitudes empreendedoras, como vendas e atendimento ao cliente. A professora de matemática combinou matemática financeira com atividades de finanças e levantamento de preços. Já a sustentabilidade fez parte das aulas de geografia, biologia e ciências.

No segundo semestre, a comunidade escolar trabalhou na organização de oficinas empreendedoras a serem realizadas no final do ano. Tudo de acordo com os interesses dos alunos. Para isso, a escola contou com a participação de familiares, ex-alunos e outras pessoas da comunidade, com trabalhos como a montagem de uma horta, oficinas de gastronomia e de sabão.

Comunidade 01 – Durante o ano, jovens criaram empresas de reciclagem e organizaram uma feira com o tema sustentabilidade (Crédito Arquivo Pessoal Sande Polyana Silva Almeida)

O trabalho dos estudantes foi avaliado durante todo o desenvolvimento do projeto, mas a principal avaliação foi o sucesso das oficinas no final do ano, de acordo com Sande. “No final do ano, os alunos já tinham objetivos. Queriam fazer faculdade e exigiam que o projeto continuasse. Fiz também uma avaliação informal com os professores. As avaliações foram muito positivas, principalmente no quesito disciplina dos alunos e conexão com a escola.”

O projeto, que contou com outras parcerias, como de uma faculdade, outras escolas e de empresários, continuou a ser realizado em 2018 e em 2019. Estava previsto para 2020, mas teve que ser adiado devido à pandemia de Covid-19.

“Antes de tudo começar, o que eu sabia era que a escola quase não tinha projetos. A partir disso, muitos professores criaram projetos com outros focos. Ficaram motivados, porque os alunos abraçaram a ideia. Muitos alunos também quiseram apresentar projetos. Isso tudo criou uma onda motivacional”, conta Sande, que foi premiada pelo Ministério da Educação em 2018, como professora do Brasil, nas categorias estadual e nacional, e em 2019, em Minas Gerais pelo Sebrae.

O projeto contribuiu ainda para a melhoria do uso do espaço. “Tinha uma área com árvores na escola, mas ninguém ia lá. Propus a uma turma para trabalhar com um empreendimento social ali. Criaram um jardim literário. Pintaram o muro, fizeram um jardim, trabalharam com paletes. Muitos alunos criaram empresas para trabalhar com paletes depois disso. Hoje o espaço é utilizado pela escola”, diz Sande.

Diversidade no engajamento

A professora de matemática Thalita de Sá Alves Silva era vice-diretora na época do início do projeto. “Ajudei a colocar em prática. Flexibilizei os horários, os espaços e os recursos e contribuí na gestão dos alunos. Pedagogicamente, ajudei na montagem das oficinas e a conseguir o pessoal para dar cursos”, explica.

Thalita diz que gostou muito de participar do projeto. “Envolveu toda a escola e a comunidade escolar também se viu participando ativamente. Mexeu com a escola, porque partiu dos sonhos dos alunos. Não foi um projeto que veio de cima para baixo. Os alunos apontaram as necessidades deles.”

Uma estudante, por exemplo, queria fazer brigadeiros para vender. A escola conseguiu um chef para ensinar como fazer brigadeiro gourmet. “Parece simples, mas talvez ela nunca teria como pagar o curso como aquele. Fizemos um alocamento de recursos e conseguimos.”

A comunidade participou de várias formas. “Meu marido deu curso de jardinagem. Colegas ensinaram a fazer salgados. Outro sabia fazer e decorar bolos. Um pai de aluno ensinou a mexer com horta, outro ensinou a trabalhar com palete. A comunidade escolar participou do início ao fim do processo junto com os alunos”, afirma Thalita.

Paula Ludmilla Silva Almeida dá aulas de ciências e biologia na escola. A professora participa do projeto desde o início com suas turmas do 6o ano do ensino fundamental. Junto com a educadora, os estudantes produziram essências e aromatizantes naturais e colocaram em vidros com logomarca. Outra turma produziu repelente natural.

A educadora comemora a experiência. “Acho muito interessante e me sinto muito motivada ao participar pois os alunos ficam interessados e interagem bastante, aprendem muito sobre socialização, trabalho em grupo, controle financeiro, reciclagem, entre outros. A mobilização na comunidade escolar foi muito boa. Até os pais começaram a querer aprender e produzir os repelentes”, explica Paula.

Cacilda Almeida, analista da unidade de educação do Sebrae-MG, explica que a educação empreendedora é uma forma de levar o modo de pensar e agir dos empreendedores para dentro das escolas, não necessariamente com o objetivo de abrir negócios, mas para que os jovens sejam capazes de causar impacto no ambiente em que estiverem.

O sucesso da mobilização na escola ocorreu, segundo a analista do Sebrae, porque Sande conseguiu resgatar os sonhos e propósitos dos alunos. “Ela valorizou as habilidades deles, deu senso de pertencimento, com isso conquistou engajamento.”

Conseguiu também motivar os colegas, mostrando que o projeto estava dando certo nas turmas dela e que valeria a pena trabalharem de forma colaborativa. O projeto se tornou uma forma de ensino e aprendizagem com a apropriação da cultura empreendedora pela escola.

Impacto nos sonhos e projetos de vida dos estudantes

Rayane Cardoso Nunes, de 20 anos, participou do projeto em 2018, quando fazia o 3o ano do ensino médio. Na escola, ela e seus colegas criaram uma empresa que fazia apagadores com material reciclável. Hoje, a jovem tem o próprio negócio no ramo de confeitaria, faz bolos de aniversário. Com o que fatura, consegue pagar parte dos gastos que tem com sua faculdade de ciências contábeis.

“Participar do projeto foi uma das melhores coisas que fiz no ensino médio. Aprendi que um hobby pode virar profissão, que empreender vai muito além de abrir seu próprio negócio. Aprendi a desenvolver várias habilidades e a aprimorar as habilidades que já tinha”, afirma Rayane.

A participação no projeto mudou a forma como ela e os colegas enxergavam o mundo, segundo a jovem. “Foi algo incrível, aprendemos que, independente do projeto de vida que escolhêssemos, poderíamos ter um mundo com várias oportunidades. Aprendemos a ter iniciativa, a ter uma meta e cumprir com esta meta, a tirar os projetos do papel.”

Expediente

  • Coordenação do projeto
  • Ana Paula Bessa (British Council), Carla Uller (Oi Futuro), Fabio Meirelles (Oi Futuro), Fernanda Sarmento (Oi Futuro), Flávia Vianna (Oi Futuro), Isabela Milanezzi (British Council), Luis Felipe Serrao (British Council), Marina Lopes (Porvir), Regiany Silva (Porvir), Tatiana Klix (Porvir).
  • Produção executiva
  • Regiany Silva
  • Edição
  • Tatiana Klix
  • Textos
  • Marina Lopes, com apoio de Fernanda Nogueira (casos IFPR Jacarezinho e Social Enterprise Academy) e Luciana Alvarez (Escola Jardim Buscardi)
  • Vídeos
  • Marina Lopes e Vinicius de Oliveira (roteiro e entrevistas); Rastro (captação, edição e finalização)
  • Podcasts
  • Marina Lopes (roteiro), Rodrigo Paciência (edição), Tatiana Klix (apresentação)
  • Design e Desenvolvimento
  • Sintropika
  • Consultoria para infográfico sobre ensino médio
  • Anna Penido
  • O conteúdo foi produzido a partir da contribuição de representantes dos campos educação e empreendedorismo social, que se reuniram no encontro Empreendedorismo Social na Educação: Como Aproximar os Dois Universos, em 13/02/2020:
  • Adriana Barbosa (Feira Preta), Alan Nascimento (Oi Futuro), Alison Fagner de Souza e Silva (Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco), Anna Penido (Instituto Inspirare), Bárbara Gazal (Oi Futuro), Bárbara Soares (Nave Rio), Bernardo Mendonça dos Santos (egresso Nave-Rio), Carla Teixeira Panisset (Sebrae), Carlos Humberto da Silva Filho (Diáspora Black), Carol Marceli (egresso Nave-Rio), Cristina Becker (British Council), Daielly Melina Nassif Mantovani Ribeiro (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade - FEA/USP), Erick Simões de Matos (Nave Recife), Fabiano Farias de Souza (Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro), Fábio Deboni da Silva (Instituto Sabin), Fabio Miller (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável - CIEDS),
  • Gelson Henrique (CI-JOGA), Gustavo de Lima Cezário (Sebrae), Helena Singer (Ashoka), Iasmim Alves (Mais Torcedoras), João Souza (FA.VELA), Júlia Pinheiro Andrade (Ativa Educação), Juliana Guimarães (British Council), Karina Trotta (Oi Futuro), Katia Smole (Instituto Reúna), Lindsey Hall (RIO), Maíra Pimentel (Tamboro), Marina Lopes (Porvir), Raimundo das Graças Lima Xavier (Projeto Social Ação Parceiros e Espaço de Aprendizagem Criativa Comunitário), Rafael Parente (ex-secretário de educação do Distrito Federal), Raquel Souza (Instituto Unibanco), Rita Afonso (UFRJ), Roan Saraiva (Oi Futuro), Robson Melo (Estante Mágica), Silvana Bahia (Olabi), Ruth Espinola (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ), Vinícius de Oliveira (Porvir).
  • *Instituições que estão associadas aos nomes são as que eles e elas representavam na data do evento.